sexta-feira, 30 de maio de 2008

A vida, diferentes óticas

Assim como a morte, a vida é para a literatura sempre fonte de tessituras diversas. Albero Caeiro, para quem a vida não encerra mistérios e as coisas são apenas as coisas, queria que a sua fosse um "carro de bois", assim só teria rodas a ir e a voltar sempre pela mesma estrada, de modo a não ter maiores desassossegos: "Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois/ Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois/ Quase à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas, E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco."
Não encerra mistérios a vida, a vida? A vida é líquida, revestida de tempo, fugidio, em que tentamos reter sonho, vontade, desejo...


Alcoólicas
de Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.

domingo, 18 de maio de 2008

A Brites de Júlia Nery

Lançada recentemente em Portugal, a "Crónica de Brites" (Sextante Editora) conta a história de uma padeira que matou sete castelhanos com a pá do forno. Teria vivido a tal senhora no século XIV e mais se sabe dela pelo que conta o imaginário do povo.

Mas, é por meio dessa lendária e popular figura, que Júlia Nery encontra material para reconstruir a história de Brites de Almeida. Num tempo em que ser mulher não era exatamente um privilégio, encontramos uma personagem cindida, dividida. Um duplo. Ou uma duplicidade. Como a capa do livro (e é pela capa que comecei a leitura) sugere. "Não se nasce mulher, torna-se" nos diria Simone de Beauvoir, e nas páginas da "Crónica..." encontramos uma Brites que por toda vida viveu a ambivalência de "ser e não ser sendo", resistindo a "torna-se" naquele suposto modelo do eterno feminino...

sábado, 17 de maio de 2008

Antes sonhava... hoje nem durmo

Li esta frase numa traseira de caminhão. E o interessante não é exatamente a ironia do contrário que revela num "antes e depois", marcas de um tempo que não sei se tão delimitável e linear quando o assunto é sonho. O que está por trás é que salta aos olhos. Nem é preciso sono, e é isso que a frase que vi, e muitos viram ou sabem dela, diz. Basta desejo que alimente e tempo que dure. O "hoje" é qualquer momento em que a vida ficou sem cor e os desejos perderam sentido... mesmo para os que não dormem.