Assim como a morte, a vida é para a literatura sempre fonte de tessituras diversas. Albero Caeiro, para quem a vida não encerra mistérios e as coisas são apenas as coisas, queria que a sua fosse um "carro de bois", assim só teria rodas a ir e a voltar sempre pela mesma estrada, de modo a não ter maiores desassossegos: "Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois/ Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois/ Quase à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas, E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco."Não encerra mistérios a vida, a vida? A vida é líquida, revestida de tempo, fugidio, em que tentamos reter sonho, vontade, desejo...
Alcoólicas
de Hilda Hilst
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
