Uma lembrança
Rubem Braga
Foi em sonho que revi a longamente amada ; sentada numa velha canoa , na praia , ela me sorria com afeto . Com sincero afeto — pois foi assim que ela me dedicou aquela fotografia com sua letra suave de ginasiana .
Lembro-me do dia em que fui perto de sua casa apanhar o retrato , que me prometera na véspera . Esperei-a junto a uma árvore ; chovia uma chuva fina . Lembro-me de que tinha uma saia escura e uma blusa de cor viva , talvez amarela ; que estava sem meias . Os leves pelos de suas pernas lindas queimadas pelo sol de todo o dia na praia , estavam arrepiados de frio . Senti isso mais do que vi, e, entretanto , esta é a minha impressão mais forte de sua presença de quatorze anos : as pernas nuas naquele dia de chuva , quando a grande amendoeira deixava cair na areia grossa pingos muito grandes . Falou muito perto de mim , e perguntei se tomara café ; seu hálito cheirava a café . Riu, e disse que sim , com broas . Broas quentinhas , eu queria uma? Saiu correndo, deu a volta à casa , entrou pelos fundos , voltou depois (tinha dois ou três pingos de água na testa ) com duas broas ainda quentes na mão . Tirou do seio a fotografia e me entregou.
Dei uma volta pela praia e pelas pedras para ir para casa . Lembro-me do frio vento sul , e do mar muito limpo , da água transparente , em maré baixa . Duas ou três vezes tirei do bolso a fotografia , protegendo-a com as mãos para que não se molhasse, e olhei. Não estava, como neste sonho de agora , sentada em uma canoa , e não me lembro como estava, mas era na praia e havia uma canoa . “Com sincero afeto ...” Comi uma broa devagar , com uma espécie de unção .
Foi isso . Ninguém pode imaginar porque sonha as coisas , mas essa broa quente que recebi de sua mão vinte anos atrás me lembra alguma coisa que comi ontem em casa de minha irmã. Almoçamos os dois , conversamos coisas banais da vida da cidade grande em que vivemos. Mas na hora da sobremesa a empregada trouxe melado . Melado da roça , numa garrafa tampada com um pedaço de sabugo de milho — e veio também um prato de aipim quente , de onde saía fumaça . O gosto desse melado com aipim era um gosto de infância . Lembra-me a mão longa de uma jovem empregada preta de minha casa : lembro-me quando era criança , ela me servia talvez aipim , então pela primeira vez eu reparei em sua mão , e como era muito mais clara na palma do que no dorso ; tinha os dedos pálidos e finos , como se fosse uma princesa negra.
Foi o tempo da descoberta da beleza das coisas : a paisagem vista de cima do morro , uma pequena caixa de madeira escura , o grande tacho de cobre areado, o canário belga, uma comprida canoa de rio de um só tronco , tão simples , escura , as areias do córrego sob a água clara , pequenas pedras polidas pela água , a noite cheia de estrelas ...Uma descoberta múltipla que depois se ligou tudo a essa moça de um moreno suave , minha companheira de praia.
Foi em sonho que revi a longamente amada ; entretanto , não era a mesma ; seu sorriso , e sua beleza que me entontecia haviam vagamente incorporado, atravessando as camadas do tempo , outras doçuras , um nascimento dos cabelos acima da orelha onde passei meus dedos , a nuca suave , com o mistério e sossego das moitas antigas, os traços belos e serenos . Gostaria de descansar minha cabeça em seus joelhos , ter nas mãos o músculo meigo das pantorrilhas. E devia ser de tarde , e galinhas cacarejando lá fora , a voz muito longe de uma mulher chamando alguma criança para o café ...
Foi em sonho que revi a longamente amada . Havia praia , uma lembrança de chuva na praia , outras lembranças : água em gotas redondas correndo sobre a folha de taioba ou inhame , pingos d’água na sua pele de um moreno suave , o gosto de sua pele beijada devagar ...Ou não será o gosto , talvez a sensação que dá a nossa boca tão diferente uma pele de outra , esta mais seca e mais quente , aquela mais úmida e mansa . Mas de repente é apenas essa ginasiana de pernas ágeis que vem nos trazer o retrato com sua dedicatória de sincero afeto ; essa que ficou para sempre impossível sem , entretanto , nos magoar , sombra suave entre morros e praia longe .




