sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Fique perto...
"Mas acontece tipo assim: lembro do seu rosto, do seu abraço, do seu cheiro, do seu olhar, do seu beijo e começo a sorrir, é assim mesmo, automático, como se tivesse uma parte do meu cérebro que me fizesse por um instante a pessoa mais feliz do mundo, mas que só você, de algum modo, fosse capaz de ativar. Eu sei, é lindo. Mas logo em… seguida, quando penso em quão longe você está sinto-me despedaçar por inteira. Sabe a sensação de arrancar um doce de uma criança? Pois é, sou essa criança. E dói. Uma dor cujo único remédio é a sua presença. Então sigo assim, penso em você, sorrio, sofro e rezo, peço pra Deus cuidar da gente, amenizar essa dor e trazer logo a minha cura".
Caio Fernando Abreu
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Inspiração para o fim de semana...
"Chore, grite, ame.
Diga que valeu, que doeu, que daqui pra frente só vai melhorar.
Perdoe, insista, ame novamente.
Não leve a vida tão a sério.
Descomplique.
Quebre regras, perdoe rápido, beije lentamente.
Ame de verdade, ria descontroladamente e nunca lamente nada que tenha feito você sorrir..."
Vinícius de Moraes
Diga que valeu, que doeu, que daqui pra frente só vai melhorar.
Perdoe, insista, ame novamente.
Não leve a vida tão a sério.
Descomplique.
Quebre regras, perdoe rápido, beije lentamente.
Ame de verdade, ria descontroladamente e nunca lamente nada que tenha feito você sorrir..."
Vinícius de Moraes
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Um não sabia da existência do outro. Só sabiam que o amor encontraria lugar um dia num coração distante. Viviam de esperança e de olhar. Viviam da procura. Alimentavam-se de lindas histórias alheias, que colhiam em belos romances, filmes, poesias, dentre outras fontes. Não imaginavam como seria o encontro ou quem encontrariam. Reviraram mundos e paisagens. Caminharam por entre velhos clichês já conhecidos: áridos desertos, jardins floridos, sol escaldante. Carregavam sonhos para partilhar e queriam enlaçar as mãos e o corpo todo num desejo possível e mais do que real.
Até que se conheceram...apaixonadamente. Não houve dúvidas, um era parte já do outro. Um era já o que o outro desejava. Antes um, depois dois, agora um amor multiplicado e plural. Não havia obstáculos possíveis, pois todos seriam vencidos facilmente pela força do sentimento que, entre ambos, partilharam desde então. No horizonte do possível, se amaram perdidamente em amarelo fluorescente. E hoje ficam juntos como duas crianças com suas peraltices comuns.
Até que se conheceram...apaixonadamente. Não houve dúvidas, um era parte já do outro. Um era já o que o outro desejava. Antes um, depois dois, agora um amor multiplicado e plural. Não havia obstáculos possíveis, pois todos seriam vencidos facilmente pela força do sentimento que, entre ambos, partilharam desde então. No horizonte do possível, se amaram perdidamente em amarelo fluorescente. E hoje ficam juntos como duas crianças com suas peraltices comuns.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Toda menina deveria...
Toda menina deveria ser menina. E arrumar os seus cabelos com certo desleixo, deixando, quase sem querer e sem nenhuma intenção, por entre as madeixas, revelar o seu brilho. E aproveitar esse momento mágico, quando parece brilhar, para enfeitá-los com uma flor.
Toda menina deveria usar todo dia o seu vestido mais bonito. Não apenas em dia de festa, de jantar fora, de visitar os primos e tal, ou de domingo. E deveria usá-lo, seja ele o antigo ou o novo (com que sonha em suas noites que sonha ser uma princesa), como se fosse o mais bonito de todos e o mais especial. Não importa qual, pois o mais especial é a menina e não o vestido.
A menina no vestido fazendo inveja!
Toda menina deveria dessa forma se apresentar: com uma flor nos cabelos desarranjados, com um vestido antigo que lhe dá graça e atitude no movimento. E passar pelo amor assim. Esbanjando ternura e calor, solicitamente.
Toda menina deveria também rir-se das desilusões e, ao contrário da lógica esperada, abrir-se para jornadas duvidosas ou para caminhos sinuosos toda vez que sentir-se insegura. E tateá-los como quem tem em suas mãos a força necessária para o recomeço, sem medo...apenas isso...
Toda menina dona de si deveria, com sua flor, enfeites, bonecas, perfumes e encantos...tatear a vida, sonhos e desejos, como quem sabe.
Toda menina deveria também rir-se das desilusões e, ao contrário da lógica esperada, abrir-se para jornadas duvidosas ou para caminhos sinuosos toda vez que sentir-se insegura. E tateá-los como quem tem em suas mãos a força necessária para o recomeço, sem medo...apenas isso...
Toda menina dona de si deveria, com sua flor, enfeites, bonecas, perfumes e encantos...tatear a vida, sonhos e desejos, como quem sabe.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Eros e Psique
Hoje acordei me lembrando desse belo poema de Fernando Pessoa, na verdade, profundo e arquetípico...
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
- Fernando Pessoa
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Para uma menina com amor...
“Ela é uma moça de poses Delicadas, Sorrisos Discretos e Olhar Misterioso. Ela tem um quê de esquisitice, uma SENSIBILIDADE de FLOR, um Jeito Encantado de Ser, um Toque de Intuição e um Tom de Doçura. Ela reflete lilás, um Brilho de Estrela, uma inquietude, uma solidão de artista e um ar Sensato de cientista. Ela é Intensa e tem mania de Sentir por Completo, de AMAR por Completo e de Ser por Completo. Dentro dela tem um Coração bobo,que é sempre Capaz de Amar e de Acreditar outra vez.Ela tem aquele Gosto Doce de Menina Romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.” (Caio Fernando Abreu).De vez em quando ela deixa de sorrir e fecha-se para si. Ninguém a encontra e o seu olhar não diz nada. É o tempo da espera. Depois, quando a sua esperança (teimosa) lhe traz nova luz, ela se abre toda em flor e exala o seu antigo perfume. Seu olhar sorri e diz tudo. Ela vive sempre entre a terra e o céu e se recusa a acreditar na impossibilidade das realizações. Quem é ela? menina romântica com gosto ácido de mulher moderna...
segunda-feira, 13 de junho de 2011
"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"
Se Fernando Pessoa estivesse vivo, comemoraria hoje 13/06, 123 anos. Em Lisboa, sua cidade natal, é feriado... Portugal não costuma se esquecer de seus grandes nomes. Há em toda praça um monumento erguido para fazer lembrar aqueles cuja sabedoria se fazia conhecer pelas letras, pelo conhecimento, pelos grandes feitos, que fizeram a diferença num passado longínquo, por ações fundamentais que transformaram a própria história da humanidade. Fernando Pessoa foi um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, pena que em terras tupiniquins pouca gente valorize ou veja o significado disto. Também somos uma nação muito jovem, que em pleno século XVIII sequer sabia a própria nacionalidade (éramos brasileiros, brasilienses?). Mas para além de toda essa minha divagação, importa lembrar que hoje é aniversário de um dos maiores nomes da nossa língua, da Língua Portuguesa. Esse poeta mestre-de-todos não se contentava em ser ele só. Sua arte extrapolava os limites de sua própria personalidade (plural). Precisou ser muitos para ser ele com toda a sua força e talento. Traços de esquizofrenia? Não importa. Criou Fernando Pessoa(s) diversos heterônimos a fim de extravasar as fronteiras da criação poética. E o que deixou? Um legado de poemas, que se eternizaram através dos tempos. Sua obra é, portanto, um clássico da Literatura Universal. Quem na escola não leu um poema dele? Ou não se lembra, ao menos, de alguns de seus versos mais populares, como o que intitula o post de hoje, retirado de Mensagem, único livro publicado em vida.Para homenageá-lo, vou postar uma poesia de um de seus heterônimos, Álvaro de Campos, o poeta modernista, de palavras ácidas, mas que no fundo, trazia consigo uma ponta de nostalgia, uma saudade da infância (talvez uma metáfora da personalidade portuguesa, tão bem identificada por Fernando Pessoa).
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
sábado, 11 de junho de 2011
Que presente te darei?
O título do post de hoje não é meu. Na verdade, ele compõe a primeira estrofe de uma poesia de Affonso Romano Sant'anna. "Que presente te darei?", de fato, trata de um homem (o eu lírico), que, de repente, começa a refletir acerca de seu relacionamento com a amada. E nesse processo, vai percebendo o quanto pouco ele tem (se) dado. Então, deseja oferecer a ela algo especial, algo inimaginável, que ela nem sabe, nem nunca sonhou. O que essa mulher única merece? Ele, que tem sido tão mesquinho, tão egoísta, o que poderia dar a ela? A partir daí, a própria poesia se abre como um grande e maravilhoso presente! Um lindo presente: o reconhecimento da importância daquele ser com quem ele divide os seus afetos. Em última instância, talvez o poeta nos diga que nunca é tarde para isso. Talvez. De qualquer forma, o eu-lírico nos ajuda a lembrar que, para além de tudo o que desejamos ofertar para quem amamos, nada é mais importante do que uma entrega sem medo, profunda e confiante.
Espero que gostem! É uma poesia longa, mas vale a pena!
"Que presente te darei, eu que tanto quero e pouco dou, porque mesquinho,
egoísta, distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular ?
Deveria desatar inúmeros presentes ao pé da árvore, entreabrindo jóias,
tecidos, requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te o que não posso
buscar lá fora, mas o que em mim está fechado e mal sei desembrulhar ?
Gostaria de dar-te coisas naturais, feitas com a mão, como fazem os camponeses,
os artesãos, como faz a mulher que ama e prepara o Natal
com seus dedos e receitas, adornos e atenção.
Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva, como aquelas do Nordeste,
ou de antigamente - Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das Ilhas do Caribe,
onde a água e o amor são transparentes e onde a areia é fina e brilhante e,
sozinhos, habitam a eternidade, os amantes.
Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não sei mais aonde,
se numa tarde de chuva, se entre os lençóis cansados; um verso,
uma canção ou talvez o puro som de um saxofone ao fim do dia,
som que tem qualquer coisa de promessa e melancolia.
Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando todos os homens se perdem
nos papéis e escritórios, números e tensões: fugir contigo para uma tarde assim,
um espaço de amor entreaberto na peça que nos prega a burocracia dos gestos.
Gravar numa fita as canções que me fazem lembrar de ti e ouví-las, ou tocar de
algum modo, em algum cassete as frases que disseste, que em mim gravaste:
frases líricas, precisas, que quando estou cinza, relembro e me iluminam.
Te enviar todos os cartões que colecionas, de todos os lugares que conheço ou
que tu nem imaginas, ir a essas paisagens e ilhas e habitá-las
com os selos e palavras de intermitente paixão.
Dar-te aquela casa de campo entre montanhas, aquele amor entre a neblina,
aquele espaço fora do mundo, fora de outros espaços, sem telefone,
sem estranhas ligações, para ali nos ligarmos um no outro em una e dupla solidão.
Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que vendem na Ponte Vecchia, em Florença;
o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas do Havaí; aquelas pedras de vidro
para iridescentes colares, que vendem em Atenas, ao pé da Plaka,
ao pé da Acrópole, que amorosa nos contempla.
Te dar numa viagem os castelos do Loire, e sair comendo e rindo juntos no roteiro
gastronômico franco-italiano; ali comendo e aqueles vinhos bebendo,
de tudo nos esquecendo, sobretudo dos remorsos tropicais
de quem tem sempre ao lado um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.
Te darei flores. Sempre planejei fazer isto.
Tão simples: de manhã acordar displicente e começar a colher flores sob a cama.
Ir tirando buquês de rosas, margaridas, vasos de íris, orquídeas
que estão desabrochando e, uma a uma, de flores ir te cumulando.
E amanhecendo dirás:
o amado hoje está doce, seu amor aflorou e está me perfumando.
Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los entre as roupas, armários, prateleiras,
pra que na minha ausência comeces a desdobrar recados daquele que nunca
se ausentou, embora esse ar de quem vive partindo, mas , se alguma vez partiu
nas coisas prosaicas perdido, mas um olhar de quem chegou inteiro
e que se entrega enternecido e desamparado dizendo:
olha, sou teu, agora veja lá o que vai fazer comigo!"
quinta-feira, 9 de junho de 2011
"Olha"
Gosto tanto dessa música, que resolvi postar aqui em meio às poesias. Ela é doce e ao mesmo tempo não deixa de ter um toque realista. Ele (o eu lírico) fala da mulher desejada, que deixou de ser por alguns instantes, na canção, a princesa encantada, ideal e perfeita, sendo simplesmente comum, cotidiana, com "a cabeça cheia de problemas". Mas é ela a sua amada "não me importo, eu gosto mesmo assim". Como o Roberto Carlos é mesmo muito sentimental (romântico, na observação de alguns), no fim das contas não deixa de idealizá-la "tem os olhos cheios de esperança, de uma cor que ninguém mais possui". Não importa se isso também é um efeito estético. A música é linda e eu gosto dela mesmo assim.Espero que gostem!
Olha
Composição: Roberto Carlos/ Erasmo Carlos.
Olha você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei prá mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
E eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é prá valer
Olha, vem comigo aonde eu for
Seja minha amante, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Inspiração...
O teu riso
(Pablo Neruda)
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Recado para você ou para o seu amor...
e
pode
da
Se os
houver o
fique
pode
Se o
se o for apaixonante,
e os
existe
Se o 1º e o
for essa
agradeça:
- o
Se
e os
entregue-se:
Se
se a
e a
e enxugá-las
Se
Se
chinelos de
Se
o
Se
de
Se
e,
Se
é o
Muitas
muitas
e,
deixam o
É o
o deixem
(Carlos D. Andrade)
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Pessoal, muitas são as pessoas que apreciam as obras de artes, que vão aos museus, que compram livros sobre pintores famosos. Por outro lado, ainda são muitas as que guardam, infelizmente, grande ressalva em relação a elas. Há mesmo uma espécie de medo de não compreendê-las (se bem que não saibam que o principal também seja senti-las...). Pensando nisso, um professor de Literatura Portuguesa da Universidade de São Paulo, Francisco Maciel Silveira resolveu colocar à disposição de todos internautas um livro (virtual) sobre pintores e pinturas. A sua iniciativa é uma verdadeira democratização da cultura, ao invés de publicar um livro sobre o assunto, a disponibilização gratuita do Pinceladas sobre pintura alheia por meio da web garante o acesso de qualquer pessoa em qualquer lugar às obras de diversos artistas de diferentes tempos. Foi mais uma sacada genial desse autor, na verdade, livre-docente, que já tem publicado diversos livros principalmente no âmbito da Literatura.
Fica então a dica! Acessar o site significa acessar um conteúdo criativamente elaborado de modo a tornar algo tão supostamente "inacessível" em algo muito divertido de se ver, sempre, semanalmente!
Confiram!
Um dia para os afetos...
Os poetas sabem traduzir, em palavras, sentimentos. Eles têm uma sensibilidade especial, além de um talento incrível para atingir o mais íntimo de cada um de nós, sem pedir licença. Eles são fonte de inspiração quando procuramos o que dizer a quem amamos num momento especial... Ir a um poeta à procura de abrigo ou inspiração não é piegas ou démodé. É ser autêntico e corajoso. Afinal é preciso coragem para assumir por palavras de outrem o que vai no coração....Inconfesso Desejo (Carlos Drummond de Andrade)
Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo.
Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo.
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