sábado, 11 de junho de 2011

Que presente te darei?


O título do post de hoje não é meu. Na verdade, ele compõe a primeira estrofe de uma poesia de Affonso Romano Sant'anna. "Que presente te darei?", de fato, trata de um homem (o eu lírico), que, de repente, começa a refletir acerca de seu relacionamento com a amada. E nesse processo, vai percebendo o quanto pouco ele tem (se) dado. Então, deseja oferecer a ela algo especial, algo inimaginável, que ela nem sabe, nem nunca sonhou. O que essa mulher única merece? Ele, que tem sido tão mesquinho, tão egoísta, o que poderia dar a ela? A partir daí, a própria poesia se abre como um grande e maravilhoso presente! Um lindo presente:  o reconhecimento da importância daquele ser com quem ele divide os seus afetos. Em última instância, talvez o poeta nos diga que nunca é tarde para isso. Talvez. De qualquer forma, o eu-lírico nos ajuda a lembrar que, para além de tudo o que desejamos ofertar para quem amamos, nada é mais importante do que uma entrega sem medo, profunda e confiante.
Espero que gostem!  É uma poesia longa, mas vale a pena!


"Que presente te darei, eu que tanto quero e pouco dou, porque mesquinho,
egoísta, distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular ?
Deveria desatar  inúmeros presentes ao  pé da  árvore, entreabrindo  jóias,
tecidos,  requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te o que não posso
buscar lá fora, mas o que  em mim está  fechado e mal  sei desembrulhar ?
Gostaria de dar-te coisas  naturais, feitas com a mão, como fazem os camponeses,
os artesãos, como faz a mulher  que ama e prepara o  Natal
com seus  dedos e receitas, adornos e  atenção.
Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva, como aquelas do  Nordeste,
ou de antigamente - Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das Ilhas do Caribe,
onde a água e o amor são transparentes e onde a areia é fina e brilhante e,
sozinhos,  habitam a  eternidade,  os amantes.
Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não sei mais aonde,
se numa tarde de chuva, se entre os lençóis cansados;  um verso,
uma  canção ou talvez o puro som de um saxofone ao  fim do dia,
som que  tem qualquer coisa de promessa e melancolia.
Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando todos os homens se perdem
nos papéis e escritórios, números e tensões: fugir contigo para uma tarde assim,
um espaço de amor entreaberto na peça que nos prega a burocracia dos gestos.
Gravar numa fita as canções que me fazem lembrar de ti e ouví-las, ou tocar de
algum modo, em algum cassete as frases que disseste, que em mim gravaste:
frases  líricas, precisas, que  quando estou  cinza, relembro e  me  iluminam.
Te enviar todos os cartões que colecionas, de todos os lugares que conheço ou
que tu nem imaginas, ir a essas  paisagens e ilhas e habitá-las
com os  selos e palavras de intermitente paixão.
Dar-te aquela casa de campo entre montanhas, aquele amor entre a neblina,
aquele espaço fora do mundo, fora de outros espaços, sem telefone,
sem estranhas ligações, para ali nos ligarmos um no outro em una e dupla solidão.
Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que vendem na Ponte Vecchia, em Florença;
o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas do Havaí; aquelas pedras de vidro
para iridescentes colares, que vendem em Atenas, ao pé da Plaka,
ao pé da Acrópole, que amorosa nos contempla.
Te dar numa viagem os castelos do Loire, e sair comendo e rindo juntos no roteiro
gastronômico franco-italiano; ali comendo e aqueles vinhos bebendo,
de tudo nos  esquecendo, sobretudo dos remorsos tropicais
de quem tem sempre ao lado um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.
Te darei flores. Sempre planejei fazer isto.
Tão simples: de manhã acordar displicente e começar a colher flores sob a cama.
Ir  tirando  buquês de  rosas,  margaridas,  vasos  de íris,  orquídeas
que estão desabrochando e, uma a uma, de flores ir te cumulando.
E amanhecendo  dirás:
o amado  hoje está  doce, seu amor aflorou e está me perfumando.
Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los entre as roupas, armários, prateleiras,
pra que na minha ausência comeces a desdobrar recados daquele que nunca
se ausentou, embora esse ar de quem vive partindo, mas, se alguma vez partiu
partido foi para reunido regressar.
Te dar um gesto simples. Passar a mão de repente sobre tua mão,
como se apalpa a  vida ou fruto que pede para ser colhido.
Te dar um olhar, não aquele olhar distraído, alienado de quem está
nas coisas prosaicas perdido, mas um olhar de quem chegou  inteiro
e que se entrega enternecido e desamparado dizendo:
olha,  sou  teu,  agora  veja  lá o  que  vai  fazer  comigo!"

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