segunda-feira, 13 de junho de 2011

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Se Fernando Pessoa estivesse vivo, comemoraria hoje 13/06, 123 anos. Em Lisboa, sua cidade natal, é feriado... Portugal não costuma se esquecer de seus grandes nomes. Há em toda praça um monumento erguido para fazer lembrar aqueles cuja sabedoria se fazia conhecer pelas letras, pelo conhecimento, pelos grandes feitos, que fizeram a diferença num passado longínquo, por ações fundamentais que transformaram a própria história da humanidade. Fernando Pessoa foi um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, pena que em terras tupiniquins pouca gente valorize ou veja o significado disto. Também somos uma nação muito jovem, que em pleno século XVIII sequer sabia a própria nacionalidade (éramos brasileiros, brasilienses?). Mas para além de toda essa minha divagação, importa lembrar que hoje é aniversário de um dos maiores nomes da nossa língua, da Língua Portuguesa. Esse poeta mestre-de-todos não se contentava em ser ele só. Sua arte extrapolava os limites de sua própria personalidade (plural). Precisou ser muitos para ser ele com toda a sua força e talento. Traços de esquizofrenia? Não importa. Criou Fernando Pessoa(s) diversos heterônimos a fim de extravasar as fronteiras da criação poética. E o que deixou? Um legado de poemas, que se eternizaram através dos tempos. Sua obra é, portanto, um clássico da Literatura Universal. Quem na escola não leu um poema dele? Ou não se lembra, ao menos, de alguns de seus versos mais populares, como o que intitula o post de hoje, retirado de Mensagem, único livro publicado em vida.

Para homenageá-lo, vou postar uma poesia de um de seus heterônimos, Álvaro de Campos, o poeta modernista, de palavras ácidas, mas que no fundo, trazia consigo uma ponta de nostalgia, uma saudade da infância (talvez uma metáfora da personalidade portuguesa, tão bem identificada por Fernando Pessoa).

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

sábado, 11 de junho de 2011

Que presente te darei?


O título do post de hoje não é meu. Na verdade, ele compõe a primeira estrofe de uma poesia de Affonso Romano Sant'anna. "Que presente te darei?", de fato, trata de um homem (o eu lírico), que, de repente, começa a refletir acerca de seu relacionamento com a amada. E nesse processo, vai percebendo o quanto pouco ele tem (se) dado. Então, deseja oferecer a ela algo especial, algo inimaginável, que ela nem sabe, nem nunca sonhou. O que essa mulher única merece? Ele, que tem sido tão mesquinho, tão egoísta, o que poderia dar a ela? A partir daí, a própria poesia se abre como um grande e maravilhoso presente! Um lindo presente:  o reconhecimento da importância daquele ser com quem ele divide os seus afetos. Em última instância, talvez o poeta nos diga que nunca é tarde para isso. Talvez. De qualquer forma, o eu-lírico nos ajuda a lembrar que, para além de tudo o que desejamos ofertar para quem amamos, nada é mais importante do que uma entrega sem medo, profunda e confiante.
Espero que gostem!  É uma poesia longa, mas vale a pena!


"Que presente te darei, eu que tanto quero e pouco dou, porque mesquinho,
egoísta, distraído não te cumulo daquilo que deveria cumular ?
Deveria desatar  inúmeros presentes ao  pé da  árvore, entreabrindo  jóias,
tecidos,  requintados e pessoais objetos, ou deveria dar-te o que não posso
buscar lá fora, mas o que  em mim está  fechado e mal  sei desembrulhar ?
Gostaria de dar-te coisas  naturais, feitas com a mão, como fazem os camponeses,
os artesãos, como faz a mulher  que ama e prepara o  Natal
com seus  dedos e receitas, adornos e  atenção.
Te dar, talvez, um pedaço de praia primitiva, como aquelas do  Nordeste,
ou de antigamente - Búzios e Cabo Frio; um pedaço de mar das Ilhas do Caribe,
onde a água e o amor são transparentes e onde a areia é fina e brilhante e,
sozinhos,  habitam a  eternidade,  os amantes.
Te dar aquele verso de canção um dia ouvida não sei mais aonde,
se numa tarde de chuva, se entre os lençóis cansados;  um verso,
uma  canção ou talvez o puro som de um saxofone ao  fim do dia,
som que  tem qualquer coisa de promessa e melancolia.
Fugir uma tarde contigo para os motéis, quando todos os homens se perdem
nos papéis e escritórios, números e tensões: fugir contigo para uma tarde assim,
um espaço de amor entreaberto na peça que nos prega a burocracia dos gestos.
Gravar numa fita as canções que me fazem lembrar de ti e ouví-las, ou tocar de
algum modo, em algum cassete as frases que disseste, que em mim gravaste:
frases  líricas, precisas, que  quando estou  cinza, relembro e  me  iluminam.
Te enviar todos os cartões que colecionas, de todos os lugares que conheço ou
que tu nem imaginas, ir a essas  paisagens e ilhas e habitá-las
com os  selos e palavras de intermitente paixão.
Dar-te aquela casa de campo entre montanhas, aquele amor entre a neblina,
aquele espaço fora do mundo, fora de outros espaços, sem telefone,
sem estranhas ligações, para ali nos ligarmos um no outro em una e dupla solidão.
Se queres jóias, te darei. Aqueles corais que vendem na Ponte Vecchia, em Florença;
o âmbar ou as pérolas que expõem nas lojas do Havaí; aquelas pedras de vidro
para iridescentes colares, que vendem em Atenas, ao pé da Plaka,
ao pé da Acrópole, que amorosa nos contempla.
Te dar numa viagem os castelos do Loire, e sair comendo e rindo juntos no roteiro
gastronômico franco-italiano; ali comendo e aqueles vinhos bebendo,
de tudo nos  esquecendo, sobretudo dos remorsos tropicais
de quem tem sempre ao lado um faminto desamparado, de culpa nos ferindo.
Te darei flores. Sempre planejei fazer isto.
Tão simples: de manhã acordar displicente e começar a colher flores sob a cama.
Ir  tirando  buquês de  rosas,  margaridas,  vasos  de íris,  orquídeas
que estão desabrochando e, uma a uma, de flores ir te cumulando.
E amanhecendo  dirás:
o amado  hoje está  doce, seu amor aflorou e está me perfumando.
Escrever bilhetes pela casa inteira, metê-los entre as roupas, armários, prateleiras,
pra que na minha ausência comeces a desdobrar recados daquele que nunca
se ausentou, embora esse ar de quem vive partindo, mas, se alguma vez partiu
partido foi para reunido regressar.
Te dar um gesto simples. Passar a mão de repente sobre tua mão,
como se apalpa a  vida ou fruto que pede para ser colhido.
Te dar um olhar, não aquele olhar distraído, alienado de quem está
nas coisas prosaicas perdido, mas um olhar de quem chegou  inteiro
e que se entrega enternecido e desamparado dizendo:
olha,  sou  teu,  agora  veja  lá o  que  vai  fazer  comigo!"

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Olha"

Gosto tanto dessa música, que resolvi postar aqui em meio às poesias. Ela é doce e ao mesmo tempo não deixa de ter um toque realista. Ele (o eu lírico) fala da mulher desejada, que deixou de ser por alguns instantes, na canção, a princesa encantada, ideal e perfeita, sendo simplesmente comum, cotidiana, com "a cabeça cheia de problemas". Mas é ela a sua amada "não me importo, eu gosto mesmo assim". Como o Roberto Carlos é mesmo muito sentimental (romântico, na observação de alguns), no fim das contas não deixa de idealizá-la "tem os olhos cheios de esperança, de uma cor que ninguém mais possui". Não importa se isso também é um efeito estético. A música é linda e eu gosto dela mesmo assim.

Espero que gostem!


Olha
Composição: Roberto Carlos/ Erasmo Carlos. 


Olha você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei prá mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
E eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é prá valer
Olha, vem comigo aonde eu for
Seja minha amante, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Inspiração...

O teu riso
(Pablo Neruda)


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Recado para você ou para o seu amor...

Quando encontrar alguém
e esse alguém fizer seu coração
parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção:
pode ser a pessoa mais importante
da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento,
houver o mesmo brilho intenso entre eles,
fique alerta:
pode ser a pessoa que você está esperando
desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso,
se o for apaixonante,
e os olhos se encherem d'água neste momento, perceba:
existe algo mágico entre vocês.
Se o 1º e o último pensamento do seu dia
for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos
chegar a apertar o coração,
agradeça:
Algo no céu te mandou um presente divino
- o amor.
Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro
por algum motivo e, em troca, receber um abraço,
um sorriso, um afago nos cabelos
e os gestos valerem mais que mil palavras,
entregue-se:
vocês foram feitos um pro outro.
Se por algum motivo você estiver triste,
se a vida te deu uma rasteira
e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento,
chorar as suas lágrimas
e enxugá-las com ternura,
que coisa maravilhosa:
você poderá contar com ela
em qualquer momento de sua vida.
Se você conseguir, em pensamento,
sentir o cheiro da pessoa
como se ela estivesse ali do seu lado...
Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,
mesmo ela estando de pijamas velhos,
chinelos de dedo e cabelos emaranhados...
Se você não consegue trabalhar direito
o dia todo, ansioso pelo encontro
que está marcado para a noite...
Se você não consegue imaginar,
de maneira nenhuma,
um futuro sem a pessoa ao seu lado...
Se você tiver a certeza
que vai ver a outra envelhecendo
e, mesmo assim, tiver a convicção
que vai continuar sendo louco por ela...
Se você preferir fechar os olhos,
antes de ver a outra partindo:
é o amor que chegou na sua vida.
Muitas pessoas apaixonam-se
muitas vezes na vida, mas poucas amam.
Ou encontram um amor verdadeiro.
Ou às vezes encontram
e, por não prestarem atenção nesses sinais,
deixam o amor passar,
sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.
É o livre-arbítrio.
Por isso, preste atenção nos sinais -
não deixe que as loucuras do dia-a-dia
o deixem cego para a melhor coisa da vida.
(Carlos D. Andrade)